“Temos que reconhecer que o livre mercado é a mais poderosa força geradora de nossa prosperidade..., mas isso não é um passe livre para Ignorar as conseqüências de nossas ações.”
Barack Obama: artigo publicado no caderno “dinheiro” da FolhaONLINE de 17/06/09.
Em 1776, em “A riqueza das Nações”, Adam Smith introduziu um termo chamado “mão-invisível”, que regularia o mercado mesmo sem que existisse uma entidade coordenadora – como o governo – de interesse mútuo que sinalizasse os caminhos a seguir. Assim seria um mercado liberal, em que o sistema capitalista se auto-gerisse. Para ele, a “mão-invisível” regularia o mercado, a oferta e a demanda tenderiam a se auto-regular buscando sempre o ponto de equilíbrio, assim como o mercado financeiro se auto-controlaria.
Os EUA sempre se demonstraram defensores de tal teoria, inclusive isso acabou culminando em uma “cartilha do neoliberalismo”, conhecida como “Consenso de Washington”. Esta “cartilha” impõe um receituário neoliberal, com uma intervenção mínima do estado na economia, e coloca que as privatizações são um pretenso remédio universal para todos os males físicos e morais. E que através disso todos os problemas econômicos latino-americanos seriam resolvidos. Assim, trazem de volta a poderosa “mão-invisível” de Adam Smith no mercado global, chamando assim de um período neoliberal.
Eis que a grande liquidez do mercado, disponibilizando recursos com menor rigor no mercado, faz com que boa parte dos Americanos consiga comprar sua linda casa, seu carro “super-potente”, e ainda continuar vivendo em um bom padrão nos EUA.
Para que todos entendam o que supostamente originou a crise, explicarei em três parágrafos abaixo:
A Liquidez no mercado era alta, ou seja, estava sobrando muito dinheiro para investir, e em geral, quem tem muito dinheiro para investir busca investimentos com boa rentabilidade. O grande problema é que geralmente, o investimento que traz maior rentabilidade traz consigo maior risco. Houve então uma maior oferta de recursos no mercado, para mais pessoas com incapacidade de pagamento de suas dívidas, com maior histórico de inadimplência e que em geral podem oferecer menor garantia, são os chamados subprimes (Créditos de segunda linha).
Como os subprimes têm maior risco, eles também têm uma taxa de juros mais elevada, tornando-se mais atraentes para gestores de fundos, onde trariam mais rentabilidade. O que ocorria então era que, o indivíduo adquiria recursos de uma instituição X, e esta instituição vendia estes recursos para outra instituição(gestores de fundos, por exemplo). Quando isto ocorre, a instituição X acaba tendo ainda mais dinheiro para emprestar, mesmo sem que o indivíduo tenha pagado seus empréstimos.
O que ocorreu foi que boa parte dos indivíduos que tomaram o primeiro empréstimo acabaram não pagando, e isso acabou criando uma "corrente de inadimplência".
Desde quando isso vinha ocorrendo e sendo mascarado? Não sei. O fato é que, voltando a nossa análise inicial, percebe-se que a mão-invisível acaba sendo ineficaz, e em grande parte, pelo motivo de que os indivíduos que atuam mais ativamente no sistema capitalista, têm um forte viés à obtenção de lucros e tomam as atitudes em benefício próprio.
Para amenizar a crise e impedir que ela fosse ainda maior, os governos dos países abrem seus cofres, emitem moeda e saldam – se não totalmente pelo menos parcialmente – as dividas dos subprimes. Não discuto se isto está correto ou não, afinal, a quebra dos principais bancos do mundo levaria inevitavelmente, como quase levou, a falência de empresas gigantes de vários setores, ocasionando a demissão de milhares – se não milhões em todo o mundo – de funcionários.
A não intervenção do governo neste caso, levaria à diminuição mais acentuada do consumo e consequentemente à quebra de mais empresas. Mas até quando este ciclo de desaceleração e retração da economia perduraria? Alguns anos? Varias décadas? Seja o tempo que for, dadas as proporções que a crise atingiria, certamente o mundo inteiro iria sofrer como jamais sofreu, e o que passamos nestes últimos dois anos não seria um terço, creio eu, do que se passaria sem a intervenção do governo.
Assim, mais uma vez – como em 1929 na grande crise mundial – os que enalteciam o neoliberalismo e enxovalhavam o Keynesianismo, agora buscam nele a cura para os problemas econômicos, como os EUA comprando os subprimes.
O fato é que o crescimento da Economia é cíclico, chegará sempre um momento em que a oferta de produtos será superior a capacidade de consumo dos indivíduos, mesmo com intervenção do governo. Resta-nos então, saber enxergar e aproveitar o legado que esta e as possíveis próximas crises nos deixarão.
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